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Ceres Marcon
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TARDES NO ASTERÓIDE

Observo a tarde.
Ela vai passando.
Calma, morna e silenciosa.
Se estivesse à beira de um rio, esse silêncio seria quebrado pelo burburinho das águas, pelo sopro do vento passando entre as folhas das árvores e pelo canto dos pássaros. Mas aqui, no meio das pedras do calçamento deste pequeno asteróide, esse silêncio se perde ora pela passagem dos carros, ora pelo andar apressado das pessoas, ora pelos sons de todo tipo de atrito que podemos perceber se estivermos atentos à vida que passa.
O caminhar das pessoas, esses passos estranhos, chamam a atenção. Elas seguem, algumas observando o chão, ombros curvados, desatentas ao silêncio que só eu percebo, outras preocupadas com o horário do banco, outras...
O tempo parece parar por alguns instantes. Tudo continua ao meu redor ou fui eu quem parou? Fico alheia a esses movimentos, todos, apenas sentindo o momento.
Faço isso com freqüência.
É um prazer só meu essa percepção de algo além de mim. Consigo escutar o canto dos pássaros, percebo o barulho do vento e sinto no corpo o calor do sol. Não aquele calor que todos reclamam por fazer o corpo suar e o mau cheiro se propagar, mas o calor acolhedor, que amorna minha alma e anima meu corpo cansado do frio do inverno. São momentos únicos. Totalmente diversos um do outro.
E as pessoas continuam passando por mim. Olhares distantes. Preocupações visíveis. Alegrias. Tristezas. Conversas de comadres. Crianças gritando. Barulho de borracha atritando no calçamento.
Olho atenta a movimentação, o entra e sai das lojas.
Quem são realmente essas pessoas?
Moram aqui?
Vieram a passeio?
O que realmente fazem de suas vidas?
O que eu faço no meio disso tudo?
O cotidiano do asteróide é monótono. Amanhece e o dia segue e a noite vem com sua beleza cor de prata. Esporadicamente essa monotonia é alterada por algum acontecimento catastrófico, pode ser um assalto, uma briga conjugal, um falecimento, que, apesar da rádio local, continua sendo divulgado pelos alto falantes da Igreja Matriz, mas simplesmente, totalmente, inaudível. Seria pelo barulho constante da rua ou pela falta de potência das velhas caixas de som da nossa querida igreja? E então os sinos dobram. Por quem mesmo? Os comentários de quem, quando e como já correm pelo asteróide. A rua pára por alguns minutos.
O cortejo passa.
A vida segue. Ou seria a morte?
Quantas vezes vi essa cena? Incontáveis.
De algumas até participei, observando o choro contínuo e desesperado de pessoas inconformadas pelo inevitável.
Quando será minha hora de ser a atriz principal? Será que irão noticiar na Igreja Matriz? Como serei lembrada? Isso realmente faz diferença?
O que me agrada desses, momentos silenciosos que faço observando a tarde, é a percepção desse mundo irreal em que vivo. O meu mundo é irreal. O asteróide não.
Revivo milhões de cenas da minha vida que já se foram, de como poderiam ter sido, de que forma eu gostaria que houvessem acontecido e então, o barulho do carro de som, vendendo o produto da loja vizinha, desperta meu devaneio.

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Ceres Marcon

CONVITE

Olá, gostaria de convidar a todos que gostam de leitura para visitarem:
http://moonlightbaby.blogspot.com , deixem lá suas opiniões, elas são muito importantes.
Um grande abraço a todos.

Postado em 19 outubro 2009 às 14:21 ‚Äî

 
 

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