
Rembrandt
TRANSIÇÃO
Esta aparência incerta
de meus passos
estrandando histórias
e dengos
às vezes, em salto
às vezes, sobressalto
voa
para cima
ou para baixo
em rumo concomitante
de chapéus e sapatos
infernos e céus
-um corpo que se enterra
uma alma que se liberta
aberturas e obscurecimentos
de véus
E o chão
que se dilacera
entre o santo e a fera
abre…
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 6 dezembro 2009 às 11:16 —
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CICATRIZ
para Graça Graúna
Solano sol
de cada manhã
a cor
do sol
doura a pele
de liberdade
a cada passo
a África
colada
à sola
da caminhada
é asa
Solano sol
poesia e rouxinol
canto da manhã
na cor
desterro e dor
de uma pátria
colada à sola
da caminhada
a cadência
marca
a fala
e fertiliza o chão
por onde a África
passa
Solano sol
da fala
a cor é flor
na marca
a pele…
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 9 maio 2009 às 22:47 —
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Caravaggio
DESTINO
Deus vai se construindo
todos os dias nos homens
Deus vai se despertando
todas as horas nos homens
Deus vai se abrindo
todos os momentos nos homens
Deus vai se divinizando
todas as existências nos homens
E os homens vão todos os dias
se amedrontando com esta morte diária
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 22 março 2009 às 20:38 —
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Alessandro Botticelli
LEMBRANÇAS
Coleciono palavras antigas
e um gosto estranho pelo bordado da caminhada
dos pés estradas pontes rios
Estruturo gestos largos e deixo fluir
o riso e a lágrima com a mesma intensidade
dos navios que cruzam mares rostos olhares
Fixo os olhos das meninas em minha cara
e guardo sempre aberta…
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:40 —
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Escultura de Rodin
CERTEZA
O que desta mão resta
luz, escuridão, fresta?
Que chão pouso a memória
por onde anda o vôo
a semente, o grão?
E o mundo em volta,
volta ao começo
de tudo
tudo é apenas recordação
pouso amplidão
E o chão nos espera
em estradas já traçadas
-linhas da mão
Hideraldo Montenegro Continuar
Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:38 —
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Escultura de Rodin
EFETIVO
E a pedra
quieta
se desloca
no tempo
disfarçadamente
como o vôo
se move
no pouso
e a despudorada amante
na aguardente
E a pedra
petrifica
o riso e a dor
sem prazer
ou sofrimento
impassível
dentro
do infinito
movimento
dos pés
de Deus
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:36 —
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Rafael Sanzio
SILÊNCIO
Ali onde não há palavras
a alma é completa-
mente sólida
como Deus
é existência eterna-
mente homem
na pausa da fala
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:35 —
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Peter Paul Rubens
INSPIRAÇÃO
No apertado das horas
escrevo poemas largos
com palavras e fitas
Poemas emendados
Poemas-chitas
Colo todas as palavras
que sobrevoam
rápidas
sobre o papel
como se fossem listas
sem discriminar nem a que me agita
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:33 —
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Magritte
INDECIFRÁVEL
O poema que não escrevi
é feito de carne
tem nome largo
e palavras de forma
O poema que não escrevi
dorme comigo todos os dias
revira meus sonhos
torna-se insônia
O poema que não escrevi
come, bebe, faz sexo
e, às vezes, sai pelo nariz
O poema que não escrevi
vive na lama, no lixo
no luxo, na cama
O que poema que…
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:32 —
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Escultura de Rodin
ABSOLUTO
E no reino mineral
tudo se organiza
firme ou flexível
Mesmo úmido
não se torna indefinido
tudo segue preciso
sólido ou derretido
E no reino mineral
nada fica quieto
nem Deus está adormecido
é absoluto tecido
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:30 —
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Ilustração:<</i>i>Gustav Doré
INICIAÇÃO
Quantos corpos são passados em meu corpo?
Quantos mortos carregam o meu dorso?
Os olhos alcançam as coisas
Mas não a compreensão
Quando um homem desperta na Terra
uma luz se acende no firmamento
e estrelas se acendem nos olhos do iluminado
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:26 —
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David - Escultura de Michelangelo
TRINCHEIRA
Que venham as cegonhas
Que venham os abraços abertos
Que venha o sorriso leve fixo certo
Que venham as mentiras as verdades e as vergonhas
Que venham o vôo e o pouso e os netos
Que venham todos os aeroportos
Que venham e passem todos
que preciso continuar em campo aberto
vivo ou morto
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:25 —
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Pietá - Michelangelo
INSOFISMÁVEL
Este corpo que atravessa a vida, a garganta, o tempo
atravessa o fosso, a fossa, o vento
sempre mensurável como o gado e o feno
Este corpo, irrecusável instrumento, indissoluvelmente afinado com o
tempo
luta para se manter atento, pulsante e, às vezes, dormente
como porta, concha, moinho, cata-vento
Atravessa a noite, o sono, o sonho, a estaçã…
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:24 —
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quadro de Gauguin
DESPEDIDA
Não me esperem para o jantar
Não me esperem nas esquinas
Não sejam bestas em me esperar
Sigam em frente
Escovem os pés penteiem os dentes
Façam a festa
Cantem dancem
e soltem todos os seus fantasmas
de mim
e velas não precisam acender
Digam apenas adeus
e me deixem em paz
que daqui não saio mais
-Afinal, este meu silêncio
não é c…
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:23 —
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Rembrandt
CONSTATAÇÃO
Os mortos estão mortos
e os vivos estão para morrer
A vida corre pelos corredores
e todos vãos abertos estão
para a veia e a cova
somos tudo nada
somos nada tudo
em vão
sim e não
absolutamente
grão
fome e pão
somos não
Infinitamente
chão
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:22 —
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FINAL
Deitado vejo o nada que tua mão oferece
e recebo o teu desejo como prêmio
e reconhecimento.
Tento lembrar alguma coisa que ficou
No passado, talvez
-ou será agora?
Tua mão se espalha e rio
profundamente deste vazio.
-O prazer é um pouso, é uma pausa
que a alma faz no corpo-
Acendo um cigarro e lanço meu olhar para este fosso
onde fui arremessado pelo…
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:19 —
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pintura de John William Waterhouse
CANTATA - HUMANO CANTO
O dia convida ao açoite
das palavras que se fazem vento
Tantos fantasmas invadem o dia
que a noite só resta o silêncio
Penso nas horas
que passam como vento
e voam pela janela
Penso nas crianças que hão de vir
e nas crianças que ficaram
presas na memória
O pó ocupa todos
os espaços
e não pá…
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:17 —
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Salvador Dali
PERTO
Tão longe eu moro
Que não existem portas abertas
Tão longe eu moro que nem portas existem
De tão longe a paisagem só existe
E divide o espaço
Da minha distância
De tão longe
Vivo tão perto
De mim mesmo
sem Fronteiras
De tão longe
Não sou alcançado
Pelo dano que causaria
A mim mesmo
De tão longe
Vivo de janelas abertas
Sem temor
Nem mesmo do diabo…
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:15 —
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Pintura de Caravaggio
MORAL DA HISTÓRIA
A carne dura
a vida dura
o sangue veloz
a mente escura
as noites intermináveis
o dia esperado
a tesão sem ato
o ato sem tesão
os olhos turvos
um nome sem peso
querendo se vingar
de tudo isto
quando um simples lexotan
ou uma missa
poderia resolver a questão
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:14 —
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Pablo Picasso
O POMBO
Um homem sentado numa praça
de Curitiba, São Paulo, Recife, Londres...
Aquele homem é o mesmo
em todas as praças do mundo?
Um homem pousa num banco
e seus pensamentos voam igualmente
como o pensamento de todos os homens
sentados numa praça qualquer
Eis um homem pousado voando
pelo mundo
Esse homem é um pombo
Esse homem é a paz
Será por isso que existem praça…
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Adicionado por Hideraldo Montenegro em 4 fevereiro 2009 às 22:12 —
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