A VIDRAÇA
(Prosa Poética)
Sá de Freitas
O sol com o seu lenço brilhante,
Enxugava as últimas lágrimas da noite,
Que escorriam pela vidraça do meu escritório.
Afastei as cortinas, observei a rua.
Pessoas vinham e pessoas iam pela calçada,
Sem olhar umas para as outras,
Como se caminhassem sozinhas numa selva,
Ainda não deflorada pela civilização.
Cada qual com a sua cruz,
Cada uma seguindo o seu destino.
Na profundeza do vulcão de cada mente,
Por certo borbulhavam lavas de sofrimentos,
De desgostos, de desilusões e de amor frustrado.
Com certeza espalhavam-se enxofres de desempregos,
De miséria extrema e dívidas acumuladas.
O coração de alguns talvez estivesse doendo,
Pela conscientização da falta de socorro
Às crianças que são mortas, que passam fome,
Que são estupradas e espancadas por animais
Apelidados de pais ou de padrastos;
Pela conclusão de que pessoas, jovens ou idosas,
Encontram a morte nas portas dos Hospitais,
Por falta de atendimento.
Essas conclusões ou mais, provavelmente entrariam em erupção,
Ao primeiro abalo no solo do lar.
Mais vagaroso, porém, um senhor, etiquetado pelos anos,
Olhava para as poucas árvores,
Que os "os racionais" pouparam... e sorria feliz .
Cumprimentava alegre aqueles com quem se cruzava,
Mas recebia de alguns apenas um frio aceno de cabeça.
Contudo, era um “velho jovem” que tinha esperança
Em um futuro melhor, porque lutava por ele.
Minutos depois, passou uma jovem linda,
Mas cabisbaixa, a olhar para o chão,
Temendo namorar as alturas...
Era uma “jovem velha” que temia a própria existência,
Por ter se acomodado, aceitando tudo
Do jeito que está.
E eu?
Apenas um poeta que olhava os transeuntes
Pela vidraça do escritório,
Pretendendo entender o mundo, pela vidraça da vida,
E depois escrever isso,
Para que as pessoas lutem contra
Os "por issos" de toda essa Babilônia.
=
(Samuel Freitas de Oliveira)
Avaré - SP
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